Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Castorina do Aracati



Dotada de boa memória, viajada e inteligente, Castorina é um bom papo, não deixa a gente se desligar, nem mesmo por instantes, de sua figura encantadora e magnetizante. Seu grande amor, depois do Aracati, é o Recife, onde ela sempre ia vender rendas e bordados. Recife, como Aracati, é uma cidade de muita água.

Tem mar e rio,  muitas pontes e porto movimentado. Isso é o seu fraco.
Posso dizer que me criei dentro d'água. Sou da água doce e da salgada ao mesmo tempo. Não me assombrei nem mesmo com a cheia de 24.
Ela se refere à enchente de 1924, quando Aracati foi totalmente inundada, ficando quase submersa. Ainda hoje tem lá o Alto da Cheia Grande, onde muita gente escapou de morrer afogada.

O AMIGO DESEMBARGADOR


-Eu não gosto de beber mas  nesse dia entrei na Cumbe. Cumbe é a cachaça oficial de Aracati e caju é o tira-gosto de fé.
O desembargador Ubirajara Carneiro foi promotor em Aracati, faz muitos anos. Ali fez uma grande amizade com Castorina, a quem o velho magistrado dedica especial atenção. Todos os domingos eles se encontram para uma conversa informal, o que ambos passaram a chamar "um domingo alegre". Insistimos, mas ela desconversou:
-O desembargador não tem.
Esse "não tem" significa apelido. Sem dúvida por respeito a uma velha amizade, mas a fonte não secou.



Pelo comum, quando uma pessoa chega aos sessenta anos vai logo tratando de se acomodar, achando que já deu o que tinha de dar e por isso mesmo o melhor é encostar as "chuteiras". Outras, entretanto, se bem que em número reduzido, mantêm-se em bom estado físico e mental depois dos oitenta, como ocorre com Castorina Chaves Pinto, a famosa Castorina do Aracati, atualmente com 88 anos bem vividos. Inteligente, alegre e jovial, ela está para o humorismo assim como Tristão de Ataíde está para a literatura: na flor da idade. Prova evidente de que ambos são dotados de elevado QI, visto que somente os que possuem uma mentalidade inferior se fossilizam, como acontece com o batalhão de quadrados os chamados ultra conservadores que não admitem mudanças.                                                     
-Sou da idade da pedra e se você achar pouco bote mais tempo.
É assim que ela responde aos que lhe perguntam quantos anos tem. E em seguida diz um gracejo adequado à ocasião ou manda logo um apelido certeiro.
-Vige, bicho, tu é ver um bacurau ...
Mas o importante é que ela não faz isso para humilhar a pessoa. E sim para brincar, mexer com quem está quieto, pura e simplesmente. É exato que muitos apelidos surgiram dessas brincadeiras, mas não houve, de sua parte, intenção premeditada de rotular. Às vezes ela nega a autoria de um apelido que se tornou famoso, dizendo que o autor foi o Teófilo, seu irmão.                      
- Nunca botei apelido em bispo. Em padre, sim, porém  poucos. O Teófilo é que não respeitava patente.



DELLA ROVERE TEMEU

Castorina levou quase a vida toda fazendo café para intendentes e prefeitos de Aracati. Em reconhecimento a esse valioso trabalho, Ruperto Porto deu-lhe um emprego "pro-forma", na base do recibo por serviços prestados, com a remuneração de 250 cruzeiros antigos mensais. Os que vieram depois dele foram deixando a velha e dedicada cafezeira em paz, sendo que alguns concordaram em aumentar-lhe o ordenado, chegando hoje a 50 cruzeiros.              
-É dinheiro que eu vou abrir um banco.     
Aposentada por conta própria, ela veio morar em Fortaleza e ficou recebendo seu dinheirinho sem qualquer complicação. Mas quando Mário Della Rovere assumiu a chefia do município, o negócio engrossou pra cima dos funcionários da Prefeitura. Muitos foram demitidos e Castorina ficou sem receber pagamento. Passados cinco meses, a velha não aguentou mais e foi a Aracati. Teve sorte, porque o Della Rovere na ocasião estava muito cheio de encrencas e não quis arranjar mais uma, mandando pagar-lhe o atrasado.
O sanitarista Della Rovere recuou na hora exata,  pois do contrário teria pegado o maior apelido que Castorina já bolou, para largar em cima de uma incauta criatura. Solicitada a dar pelo menos uma dica, Castorina pediu calma.
-Ele que se cuide, que o bicho está arquivado. Aproveitando a deixa, dissemos-lhe que Della Rovere fora um general italiano, da Segunda Guerra, que ficou famoso por ter sido representado por um ator que morreu porque pretendeu viver o personagem na vida real, resultando disso uma opereta bufa ainda hoje bastante apreciada na Itália, explicando, afinal, que qualquer semelhança é mera coincidência.

 FAMA QUE NADA RENDE

Vivendo com uma filha de criação, numa casinha modesta da Rua Franklin Távora, Castorina atravessa uma fase difícil, que pode ser definida nesta frase:   

-Estou comendo o que o diabo enjeitou. Realmente, a velha e irrequieta cafezeira da Prefeitura de Aracati vive momentos de grande aperto, mas as queixas são feitas em termos de brincadeira,  sem perder a esportiva.
- Minha fama é grande, mas não rende nada. Ninguém manda nada pra mim.
Isto ela diz rindo, sem qualquer sombra de amargura, parece até que ironizando a si própria.
- Sou assim falante porque nasci no dia de uma trovoada. E não porque tivesse bebido água num chocalho, como disse o Chico de Jane.
Chico de Jane, seu velho amigo, é o dono do bar Amansa Sogra e o maior folião do Aracati. Uma grande praça esse antigo e compreensivo delegado civil, parte integrante do folclore aracatiense. Delegado civil e perpétuo, pois em todo governo ele é mantido no posto. Seu lema não prender e às vezes soltar...
Castorina gostava de festa, dançava bem, namorou  muito mas não casou "porque os diabos nunca quiseram casar comigo". E diz que se sente muito feliz por isso.
-Pelo menos não sou viúva.
Ela acha que fatalmente teria ficado viúva, visto que os seus irmãos já faleceram. Eram, ao todo, quinze irmãos, só restando ela*.                                       
- Só ficou eu pra contar a história.
A história de um passado faustoso, ainda agora podendo ser atestado pela arquitetura dos sobradões de Aracati, cujas fachadas são de azulejos da melhor procedência estrangeira.

Texto de Edmundo de Castro
Fotos de Geraldo Oliveira

Transcrição feita a partir de uma fotocópia de matéria cujo periódico deve ter sido publicado na década de 1970 em Fortaleza.             



*Castorina Pinto “A mulher dos apelidos" faleceu em Fortaleza com quase 90 anos de idade, achando que não merecia a fama e a repercussão que lhe projetou.

8 comentários:

  1. Gostei, de conhece a Castorina, pois quando eu era criança meus pais falavam dela . Meu tio era politico e foi a Aracati e lá chegando não saiu do Hotel ou coisa parecida. Só colocava a cabeça na janela para ver se ela estava olhando! Então ela veio e perguntou "CADê AQUELE RATO DE GAVETA?

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    1. Ah, foi seu tio q recebeu esse apelido? rsrsrs

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  2. O Ceará 'tá cheio de gente como Castorina!

    Eu sou de Fortal mas me criei numa cidadezinha perdida no meio do nada, entre Piquet Carneiro e Acopiara de nome Ibicuã.

    De Ibicuã de quem mais me lembro com personalidade tão marcante como assim como de Castorina era o "Nenel Boi" que ao se sentar numa cadeira de balanço secular da nossa vó, feito de madeira rústica e couro de boi, a cadeira estalava toda de tão gordo que ele era.

    Adorava nos contar "causos", "estórias de assombração" que nossa vó chamava de "estórias de trancoso"; estórias de lutas entre cangaceiros e jagunços de Coronéis; traições, vinganças covardes, suas crueldades, injustiças... esconderijos de pistoleiros e muitas vezes, até de confronto entre as "volantes" da Polícia e, suas longas viagens de trem pelo Nordeste inteiro mas, o que mais gostava mesmo era de se gabar do seu tempo de moço, quando todo jeitoso e bonitão, era o galã do pedaço.

    Um dia irei postar cá com a devida permissão da Deusa Leila, algo mais sobre aquela maravilhosa cidadezinha que depois que saí de lá nunca mais voltei, nem prá ver como 'tá hoje a gatinha que foi minha primeira namoradinha mas que, ainda morro de saudades dela aqui e alí, ao recordar como ela era linda e fofinha e me amava mais que eu à ela.

    Castorina, esteja com Deus e orai pelo Nordeste, os Nordestinos e principalmente nosso Ceará tão lindo e maravilhoso e, pede a São José prá não esquecer de nos mandar chuva, pois a Seca no Sertão é bastante triste e ninguém mais que eu prá dizer isto pois além de testemunhá-la algumas vezes, até me acostumei com a fome e o gosto de água cor de leite barrenta e solabra na boca, ao som incessante do sino da Igrejinha que anunciava a morte de mais um "Anjinho" que se foi chorando de tristeza, ao presenciar, viver e não mais resistir, tanta dor e tanta miséria humana.

    El Zorro!

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    1. De arrepiar seu depoimento, Patrício!

      Se vc me der a honra, será um enorme prazer postar suas memórias, amigo!

      Vc tem o dom da escrita, me fez mergulhar nas suas lembranças de menino...

      Forte abraço querido

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  3. Leila, é possível ter notícias de Djenane e Gorete que foram criadas por Dona Maria (Bebé), filha de criação de Dona Castorina Pinto, morei no pensionato dela em 1970, 1971 e 1972, na rua Franklin Távora e na Vila Homero.
    Atenciosamente
    José Mauro
    josemauroferreira@hotmail.com

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    1. Oi José Mauro, bom dia!

      Infelizmente, eu não tenho notícia nenhuma delas, sinto muito! :(
      Acredito que talvez vc obtenha algum sucesso nessa busca, indo pessoalmente na Vila Homero, falando com os antigos moradores.

      Forte abraço

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  4. Sou filha de dgnane,neta de Maria de Lurdes(bebe)e desde pequena ouvi historias sobre tia castorina e sei do pensionato de vovó.fico feliz em encontrar alguem que lembre delas Leila obrigada.

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